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O Monstro | A memória viva do Psychobilly curitibano

Fanzine, resistência e a construção da cena alternativa em Curitiba

O Monstro | A memória viva do Psychobilly curitibano
O Monstro | A memória viva do Psychobilly curitibano (Foto: Reprodução)


Por: Diego "Bone Shaker" Baldraco

A cena underground de Curitiba sempre foi marcada por sua intensidade e pela capacidade de criar espaços alternativos de expressão cultural. Dentro desse universo, o fanzine O Monstro se tornou um verdadeiro registro da energia que movimentava o psychobilly na cidade durante os anos 1990 e 2000. Agora, essa história ganha novo fôlego com o lançamento do livro de Matheus Moro, que revisita não apenas o impacto do fanzine, mas também o papel fundamental que ele desempenhou na consolidação de uma comunidade apaixonada por música, atitude e estética própria.

Mais do que uma coletânea de memórias, a obra funciona como um mergulho na atmosfera de uma época em que a produção independente era a principal forma de resistência cultural. O livro resgata a importância das publicações artesanais, que circulavam de mão em mão e ajudavam a conectar bandas, fãs e artistas visuais. Ao mesmo tempo, revela como Curitiba se tornou um ponto de encontro para o psycho.

O lançamento, marcado para 20 de junho (informações no final da matéria) não é apenas um marco editorial: é também um convite para refletir sobre como o underground curitibano construiu sua identidade e influenciou gerações. A obra mostra que o psychobilly não foi apenas música, mas também uma rede de afetos, colaborações e resistência cultural. Ao revisitar o zine, Matheus ilumina a força de uma cena que, mesmo longe dos holofotes, deixou marcas profundas na cidade.

Além de resgatar a memória do psycho curitibano, o livro também dialoga com outras formas de resistência cultural que marcaram o Brasil. O movimento punk, por exemplo, abriu caminho para uma estética contestadora e para a criação de espaços independentes de circulação de ideias. Da mesma forma, os zines independentes foram fundamentais para dar voz a artistas e coletivos que não encontravam espaço nos veículos tradicionais, funcionando como verdadeiros manifestos impressos de uma geração.

Curitiba, nesse contexto, consolidou uma cena alternativa que extrapolou o psychobilly e se conectou com outras linguagens, como o hardcore, o metal e o punk rock. Essa diversidade fortaleceu o espírito colaborativo e ajudou a criar uma rede cultural que se mantém viva até hoje. O livro, portanto, não apenas revisita uma história específica, mas também se insere em um panorama maior de resistência e criatividade que moldou a identidade underground da cidade.

Esse contexto preparou o terreno para a entrevista exclusiva que o Psychobilly Brasil realizou com Matheus Moro, onde ele compartilha bastidores da pesquisa, memórias pessoais e sua visão sobre o legado do movimento.


Conte um pouco sobre a tua trajetória e nos diga como o Matheus músico acabou influenciando na pesquisa e na escrita desse livro.

Bom, eu como músico comecei a tocar bateria aos 13 anos de idade, nesse período tocava com os amigos da rua. Em 1990 aos 14 anos de idade, montei minha primeira banda punk junto com o Wallace. Em 1991 toquei com essa banda que se chamava Expurgo no aniversário de 10 anos do Linos Bar, a partir desse momento não larguei mais o underground. Hoje já são inúmeras bandas que fiz parte, mas sempre no meio alternativo, sempre no underground.

Em 1993, já com forte influência de bandas psychobilly, como Os Cervejas, Missionários, Dráculas Krapulas, montei junto com Wallace e Ademir a banda Ovos Presley. A minha maior influência como músico na pesquisa foi a busca pelo tema. Depois da graduação, o pesquisador tem uma autonomia maior para a escolha de um objeto que lhe agrade, algo que seja de seu domínio e conhecimento, essa foi a única influência.

O que te fez querer transformar a dissertação do mestrado em algo que qualquer pessoa pudesse ler, e não só a academia?

A ideia do livro surgiu da necessidade de tornar mais público e democrático o acesso aos resultados da pesquisa, visto que o maior interesse nessa pesquisa, partiria justamente de músicos e do público psychobilly.

Revisitar a cena psychobilly dos anos 90 deve ter sido intenso… qual foi o maior desafio nesse processo?

O maior desafio nessa pesquisa foi separar o músico e apreciador do estilo do pesquisador. O olhar de pesquisador deve ser de neutralidade, não se deixar emocionar pelos fatos levantados durante a pesquisa, para que a análise final e a apresentação dos resultados sejam diferentes de revisitações e saudosismos, tornando a análise mais integra possível.

E você sente que a tua vivência pessoal dentro da cena dá uma autenticidade diferente ao livro?

Me vejo em duas situações distintas com relação a pergunta. O livro é sim acadêmico, sendo assim, por traz da sua escrita houve uma pesquisa que envolveu técnicas e uma metodologia científica, tendo como produto um texto sim com autoridade. Dentro do âmbito da minha vivência na cena, acredito que a autenticidade é latente, do leitor leigo ao que vive ou viveu a cena psychobilly em Curitiba sentirá isso durante a leitura.

Na tua visão, qual era o papel do Monstro dentro da cena underground de Curitiba?

O papel principal do fanzine era de aproximar fãs do subgênero psychobilly, mas ao analisar as entrevistas bem como cada linha, cada artigo, cada matéria do fanzine, verifica-se que O Monstro acabou aproximando toda uma cena musical underground. Uniu imprensa musical, músicos de vários subgêneros e uniu também o público em geral, e mais colocou a cidade de Curitiba no radar da música alternativa no país e no mundo todo.

Como era o corre para produzir e distribuir o zine naquela época?

Basicamente tudo dependia de uma rede de colaboradores e distribuidores. As ideias editoriais partiam da cabeça dos três editores Vlad (Os Catalépticos, Sick Sick Sinners), Carol e Gustavão (Os Catalépticos), havia também muitas ideias de pautas de colaboradores fixos chamados “colaboradores eternos” como Wallace e Coxinha (Os Catalépticos, Sick Sick Sinners, Hillbilly Rawhide e milhares de outras bandas), e demais colaboradores do brasil todo e de fora também, que mudava a cada edição do fanzine.

As cópias eram na base do xerox mesmo, a distribuição na cidade ficava por contas das festas de lançamentos sempre com shows de bandas psycho e em lojas de discos, quando o zine não se esgotava já nas festas de lançamento devido ao número de exemplares.

Você acha que ele ajudou a moldar a identidade psycho local?

Sim um fanzine geralmente é um espaço de linguagem própria sendo assim, o leitor do fanzine se sente pertencente aquela cena criando uma identidade. Acaba sendo a própria representatividade do leitor do zine dentro da cena psycho e vice-versa, e posso dizer mais, moldou uma identidade nacional do psychobilly.

Tem alguma edição ou matéria que você considera emblemática, que está como destaque especial no livro?

Todos os editoriais em principal os do número 0 e 1, e a resenha da Carol sobre o primeiro shows dos catalépticos em um festival de psychobilly na Europa.

Como foi o contato com a Ed. Vespeiro, como foi esse processo de escolha e como eles abraçaram a ideia?

Conheci o Daniel Osiecki através da música, baterista como eu, fiquei sabendo de seus caminhos pela literatura e como proprietário da editora, então conversei com ele do interesse em publicar o livro o qual aceitou prontamente a empreitada.

O que o leitor pode esperar encontrar no livro além da análise do fanzine? Tem entrevistas, fotos, materiais inéditos?

A pesquisa contou com a colaboração em entrevista de um dos editores do fanzine, o músico Vladimir Urban (Os Catalépticos, Sick Sick Sinners) e um dos colaboradores mais ativos Wallace Barreto (Ovos Presley). O livro possui inúmeras imagens como cartazes de shows, fanzines do exterior, festivais e a cereja do bolo é que nos anexos o livro trará todas as edições do fanzine em fac-símile, podendo o leitor voltar no tempo realmente.

Como você imagina que o público de hoje, que talvez não tenha vivido os anos 90, vai se conectar com essa obra?

Acredito numa afinidade com o público novo do psychobilly, pois pode levar esse público a compreender melhor os caminhos trilhados pela cena durante anos para chegar na consolidação do psychobilly no cenário atual, dos grandes festivais alternativos como por exemplo a nível nacional, o Psycho Carnival e o Psychobilly Fest, que reúne uma quantidade considerável de público e bandas nacional e internacional, além da proximidade do leitor poder se conectar com a época do fanzine.

O que fazia o psycho se diferenciar de outros movimentos alternativos em Curitiba nos anos 90?

Na verdade, havia um paralelo na época, todos os subgêneros da cena underground procuravam manter o seu público e nicho informados sobre as novidades. O diferencial, acho que com a aglutinação de bandas e público, o negócio se perpetuou com muita força ano após ano se tornando o que é ainda hoje.

Nós temos alguns nomes, mas, para você, quais bandas ou figuras você acha que foram fundamentais para consolidar essa cena?

Acho que dentro do psychobilly em Curitiba, podemos citar contribuições fortes e permanentes de figuras como, Vladimir Urban, Wallace Barreto, Coxinha, Gustavo Rodrigues (Gustavão) e bandas que levaram o nome do psychobilly a nível nacional, como Os Cervejas, Missionários, Krappulas, Ovos Presley. Em âmbito internacional o grande nome é a banda Os Catalépticos sem dúvida.

Na tua opinião, Curitiba virou mesmo um polo principal para o psychobilly, mesmo que a cena tenha surgido em outras cidades do Estado e do Brasil?

Sim, e não é puxar sardinha para um lado, mas o que eu através da pesquisa consegui concluir é isso mesmo, ou uma febre, uma efervescência de público e bandas dos anos 1990 até hoje. Não tirando a importância de outras cidades como São Paulo e Londrina por exemplo.

Que paralelos você vê entre a cena dos anos 90 e os movimentos independentes de hoje?

Sem pestanejar considero a força do DIY (faça você mesmo) o maior motor que faz a roda girar, sem essa força e independência, nenhuma cena underground sobrevive.

O que a história do psychobilly em Curitiba pode ensinar sobre resistência cultural e produção independente?

A partir da pesquisa sobre o fanzine O Monstro, posso concluir que este estudo demonstra a capacidade da cena de resistir culturalmente, como a autonomia e criatividade de diversas subculturas que é uma das principais característica de uma cena. A produção independente mesmo que pequena, demostra um crescimento fora do padrão hegemônico da sociedade. Tal produção ainda deixa rastros como: fanzines, produções fonográficas, história e narrativas que podem vir a se tornar pesquisas consistentes sobre a cena underground de Curitiba em geral, como o livro O Monstro.

Como você enxerga o papel das redes sociais hoje em comparação com os zines daquela época?

As redes sociais são hoje as nossas centrais de notícias, sendo assim, são a nossa principal fonte de recebimento e de propagação de informações. Com relação a tudo isso, não fica de fora a cena musical independente. Hoje há muitos fanzines digitais rodando nas redes.

Se O Monstro fosse relançado hoje em formato digital, como você imagina que seria a recepção?

Acredito que se o fanzine “O Monstro” fosse relançado hoje em formato digital, a recepção do público provavelmente seria um misto de curiosidade e nostalgia, especialmente entre o público com interesse em cultura underground e no psychobilly. Parte do público mais antigo veria o retorno como um resgate de memórias de uma época em que a produção independente era mais tátil e intensa, enquanto leitores mais jovens poderiam se aproximar pelo “diferente”, pelo conteúdo cru e visceral. Considero que o fanzine digital encontraria espaço em nichos específicos, sendo compartilhado como objeto de referência histórica e afirmação de uma posição “anti-algoritmo”, reafirmando sua relevância um objeto cultural de resistência.

Sobre o autor

Matheus Moro é mestre em Música, Cultura e Sociedade pela Unespar, pós-graduado em Gestão Cultural pela Universidade Senac e licenciado em Música pela Unespar. Professor de bateria, multi-instrumentista e produtor musical, integrou bandas como Ovos Presley, Hillbilly Rawhide, Movie Star Trash, Kosmic Gorilas, B. Booms e Shark Shakers. Atualmente é baterista das bandas Surfuzzes e Mongo e guitarrista da Dirty Quarantine.


Serviço

Evento: Lançamento do livro O Monstro: o psychobilly pelas lentes do fanzine 1997-1999

Autor: Matheus Moro

Data e horário: 20 de junho de 2026, às 16h

Local: Livraria Joaquim — Rua Alfredo Bufren, 51, Centro, Curitiba (PR)

Entrada: Gratuita

Atrações: Show dos Krappulas e discotecagem com o duo Desgracera Sonora

Pré-venda: Até 31 de maio de 2026 por R$ 85,00; após essa data, R$ 100,00. Informações na página do instagram: @livroomonstro

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