Nos 50 anos dos Cramps, Vengeance Records é reativada e reacende o legado da banda
Os Cramps estão oficialmente de volta. E não apenas como lembrança, item de catálogo ou nostalgia de nicho.

Por: Diego Carreiro
A reativada Vengeance Records, selo fundado pela própria banda em 1978, iniciou hoje a pré-venda de "Gravest Gravy", novo lançamento previsto para 21 de agosto em LP e CD. Ao mesmo tempo, uma nova e selvagem mixagem de "TV Set" chegou às plataformas digitais, recolocando em circulação toda a violência primitiva da fase inicial do grupo.
Mas limitar essa movimentação a uma simples campanha de relançamento seria entender muito pouco sobre o universo dos Cramps.
Tudo indica que a reativação da Vengeance Records pretende recuperar não apenas a música da banda, mas também toda a estética cultural que sempre definiu o grupo: o fascínio por filmes exploitation, horror de quinta categoria, programas televisivos decadentes, quadrinhos pulp e toda a iconografia trash que ajudou a transformar os Cramps numa das bandas mais singulares da história do rock'n'roll.

capa do Greavest Gravy, o "disco novo" dos Cramps
Se a nova mixagem de "TV Set" servir de parâmetro, "Gravest Gravy" deverá soar como o disco que os Cramps sempre quiseram fazer no início da carreira: cru, distorcido, violento e perigoso.
A impressão é de que o álbum tenta finalmente capturar, em estúdio, a brutalidade primitiva que sempre definiu os melhores momentos da banda ao vivo. Nada parece excessivamente limpo, domesticado ou polido. Pelo contrário: a "sujeira" faz parte da experiência. E talvez nunca tenha feito tanto sentido.
Desde o início, os Cramps pareciam perseguir uma combinação muito peculiar de fuzz psicodélico, rockabilly primitivo, punk e atmosfera de filme B. O grupo liderado por Lux Interior e Poison Ivy jamais funcionou como uma banda "retrô" no sentido convencional. Embora profundamente inspirados pelo rockabilly dos anos 1950 e pelo garage rock dos anos 1960, os Cramps não viam o passado como uma colcha de retalhos pronta, pois arrancavam ativamente pedaços dessa história para costurar sua própria criatura, definida como um "híbrido remendado com vida própria, uma Noiva de Frankenstein do rock’n’roll", como dizem no encarte de "How to Make a Monster".
Essa obsessão cultural aparece com força total no vídeo divulgado pela Vengeance para "TV Set", dirigido por Jason Willis. O clipe funciona quase como um manifesto visual do imaginário dos Cramps, costurando referências obscuras da cultura exploitation americana com a mesma paixão arqueológica que a banda demonstrava desde o fim dos anos 1970.
Entre as imagens utilizadas aparecem fragmentos e homenagens a clássicos absolutos do cinema trash e do horror de drive-in.
Está lá "Blood Feast", marco fundamental do gore exploitation dirigido por Herschell Gordon Lewis e frequentemente apontado como um dos primeiros filmes splatter da história. Também surgem referências a "The Brain That Wouldn't Die", clássico involuntariamente surreal da ficção científica barata, e ao delirante "The Creeping Terror", cultuado tanto pelo amadorismo extremo quanto pela atmosfera absurdamente desconfortável.
O vídeo mergulha ainda no universo dos chamados "beach horrors" e monstros adolescentes típicos dos drive-ins americanos, evocando "The Horror of Party Beach", uma espécie de encontro radioativo entre filmes de surf, criaturas mutantes e rock vagabundo.
A dimensão sexploitation também aparece de maneira evidente. Referências a "Nude on the Moon" - mistura improvável de ficção científica e nudismo softcore - convivem com imagens de "She Freak" e "She-Devils on Wheels", duas obras fundamentais da estética exploitation dos anos 1960. O primeiro transforma o ambiente decadente de um circo itinerante em pesadelo moral grotesco; o segundo acompanha uma gangue feminina de motociclistas em um universo de violência barata e rebeldia gratuita.
Tudo isso dialoga diretamente com o fascínio dos Cramps por personagens marginais da cultura americana. A banda sempre enxergou beleza precisamente naquilo que o "bom gosto" tentava esconder: filmes esquecidos, pornôs vagabundos, horror regional, apresentadores locais de TV e quadrinhos baratos vendidos em bancas de jornal.

Ghoulardi
Nesse sentido, a presença de figuras como Mad Daddy e Ghoulardi no vídeo não é acidental. Ambos ajudaram a moldar parte do imaginário cultural absorvido posteriormente pelos Cramps.
Sobre Mad Daddy, Lux Interior chegou a afirmar: "Foi Mad Daddy quem me colocou neste caminho do qual nunca consegui sair e no qual espero inserir outras pessoas. Ele foi um verdadeiro gênio."
Já Ghoulardi representava outro tipo de influência fundamental. "Ghoulardi era completamente fora de controle, vivia se metendo em confusão. Ele foi um ótimo exemplo para os jovens e um dos precursores do que depois virou a contracultura", declarou Lux em outra ocasião.
O clipe também faz referência ao conto "The Corpse That Came To Dinner", ilustrado por Reed Crandall para a nona edição da revista "Out of the Shadows", publicada em 1953. A escolha reforça outra obsessão clássica da banda: os quadrinhos de horror pré-Comics Code, famosos por suas capas grotescas, violência exagerada e atmosferas mórbidas.
Até mesmo o universo da Something Weird Video parece ecoar no vídeo. A distribuidora se tornou lendária por resgatar e preservar centenas de obscuridades exploitation - de pornôs softcore a filmes educacionais bizarros, passando por horror barato e produções psicodélicas esquecidas. É difícil imaginar uma síntese melhor do DNA cultural dos Cramps.
No fim das contas, a reativação da Vengeance Records parece significar muito mais do que a simples recuperação de um catálogo. O que está sendo restaurado é todo um ecossistema cultural.
Os Cramps sempre funcionaram tanto como uma banda tradicional quanto como curadores de um submundo cultural americano. Um lugar onde o horror barato, o rock primitivo e o lixo audiovisual se transformavam em arte.
Pelo visto, os mortos sempre voltam.

Mad Daddy
Fontes: Encarte da coletânea "How to Make a Monster" (Vengeance Records, 2004); "Viagem ao Centro dos Cramps", tradução de Diego Carreiro (Editora Sapopemba, São Paulo, lançamento previsto para 2026).

Pôster de "She Freak" (1967)

Capa do VHS de The Creeping Terror (1964)

Poster "Blood Feast" (1963)

Folha de rosto da HQ "The Corpse that Came to Dinner" (1953)

Poster de "Nude on the Moon" (1961)

Poster de "She-Devils on Wheels" (1967)

poster de "The Horror of Party Beach" (1964)

Poster de "Blood Bath - Tales of Eerie Publications" (2021)

Poster de "The Brain That Wouldn't Die" (1962)
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