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The Meteors & The Cramps | Entre o Desejo e a Destruição: A Invasão da Wrecking Crew na Turnê Britânica dos Cramps

Confira mais um artigo de Diego Carreiro contando sobre o batismo psicótico que forjou o Psychobilly

The Meteors & The Cramps | Entre o Desejo e a Destruição: A Invasão da Wrecking Crew na Turnê Britânica dos Cramps
The Meteors & The Cramps | Entre o Desejo e a Destruição: A Invasão da Wrecking Crew na Turnê Britânica dos Cramps (Foto: Reprodução)


Por: Diego Carreiro

​O ano de 1981 marcou uma encruzilhada definitiva para o rockabilly britânico. De um lado, o revivalismo polido de bandas como os Shakin’ Pyramids tentava mimetizar a pureza dos anos 50. Do outro, uma mutação genética, suja e acelerada, começava a ganhar corpo nas mãos de P. Paul Fenech e seus Meteors. Mas foi no encontro explosivo com a turnê britânica do The Cramps que essa nova estética, o Psychobilly, deixou de ser uma curiosidade de estúdio para se tornar uma milícia de rua.

​A abertura dessa turnê de 13 datas dos Cramps funcionava como um teste de DNA para o público. Os Shakin’ Pyramids eram os "bons garotos": músicos excepcionais de Glasgow que entregavam um som palatável, mas eram essencialmente arqueólogos musicais.

​Os Meteors, por outro lado, eram iconoclastas. Fenech não queria preservar o rock’n’roll - ele queria acelerá-lo até que os freios falhassem. Com o baixo acústico percussivo de Nigel Lewis e clássicos imediatos como "Maniac Rockers From Hell", a banda trouxe para o palco o lado mais barra-pesada da década de 50, filtrado pela velocidade do punk. Foi ali, entre o "cuspe de sangue de galinha" e o suor, que a Wrecking Crew se batizou como a força motriz que garantiria a sobrevivência da banda de Fenech por décadas.


​O ponto mais fascinante dessa união foi o choque térmico entre as bandas. Os Cramps eram a personificação do pansexualismo e do voodoo. Para Lux e Ivy, o rock’n’roll era um rito de acasalamento selvagem, cheio de fetiche e elegância decadente.

​Quando Lux se deparou com a Wrecking Crew na frente do palco - uma massa de garotos sem camisa, em um estado de "abandono psicótico" que engolia e cuspia qualquer intruso -, sua reação foi de um estranhamento quase cômico: "Eu gostaria que esses garotos aprendessem um jeito mais sexual de dançar". Enquanto a Wrecking Crew transformava a pista em um campo de batalha físico, Lux reagia subvertendo a violência: vestia as roupas arrancadas das garotas na plateia e se lançava ao público, transformando o motim em performance.


​Relatos de Kid Congo Powers revelam que o público dos Meteors deu aos Cramps algo que eles ainda não tinham na Europa: uma guarda pretoriana. Afinal, estar naqueles shows era como fazer parte de uma "gangue de delinquentes juvenis".

​Não era apenas música. Era um pacto de sobrevivência. Ivy, com sua autoridade mística, bastava estalar os dedos e apontar para que a "gangue" resolvesse qualquer problema na plateia. A Wrecking Crew não apenas garantia a sobrevivência dos Meteors com sua lealdade inabalável: eles se tornaram o combustível que empurrou os Cramps para um nível de periculosidade que o revivalismo tradicional jamais ousaria tocar.

Pôster do show que aconteceu no dia 17 de maio de 1981, um domingo, no Tiffany’s, em Leeds

​O Psychobilly nasceu dessa fricção. A agressividade tribal da Wrecking Crew encontrou a estética transgressora de Lux e Ivy. O resultado foi uma subcultura que, 45 anos depois, está longe de ter o seu brilho apagado.

The Cramps no show de 17 de maio no Tiffany’s, em Leeds. Foto: Nick Canute

Fonte: Viagem ao Centro dos Cramps, de Dick Porter. Tradução: Diego Carreiro. Editora Sapopemba, São Paulo, 2026.

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