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The Cramps | A banda que criou o "psychobilly" — sem querer

Descubra como os Cramps, sem querer, deram origem ao ‘psychobilly’ e influenciaram gerações. Do underground nova-iorquino ao legado que ainda pulsa na cultura pop.

The Cramps | A banda que criou o "psychobilly" — sem querer
Flyer do primeiro show dos Cramps, em 1° de novembro de 1976


Por: Diego Carreiro

A banda The Cramps, uma das mais significativas da cena nova-iorquina dos anos 70 e que viu seu legado ser reafirmado para as novas gerações após o fenômeno de "Goo Goo Muck" na série "Wandinha", é amplamente considerada a criadora do "psychobilly". Embrulhado na estética trash dos filmes de exploração, de ficção científica e de terror de baixo orçamento, o psychobilly é geralmente caracterizado pela mistura de elementos sonoros do punk rock dos anos 70 e do rockabilly dos anos 50, resultando num som rápido e enérgico.

Talvez o que pouca gente saiba é que criar o "psychobilly", tal como o conhecemos hoje, nunca foi a intenção do casal Poison Ivy e Lux Interior, membros fundadores e únicos a permanecerem do início ao fim do The Cramps, dissolvido após a morte de Lux, em 2009.

Flyer de um show do Cramps com o Meteors em 22 de junho de 1981

Na excelente biografia "Viagem ao Centro dos Cramps", de Dick Porter — a ser lançada em breve no Brasil pela Editora Sapopemba com tradução minha —, Poison Ivy explica: "Costumávamos fazer pequenos cartazes, eram apenas cópias xerocadas com fotos da nossa banda, e então escrevíamos à mão várias frases de efeito com o intuito de atrair gente pro show. 'Psychobilly' era uma delas. 'Rockabilly voodoo' também".

O termo, que não tinha, como a própria Ivy declara, o intuito de classificar o som da banda (que já misturava, à sua maneira, o rockabilly dos anos 50, o garage rock dos anos 60 e o punk rock dos anos 70), ganhou força, principalmente no Reino Unido, após o jornalista da New Musical Express, Paul Rambali, publicar um artigo de duas páginas sobre a banda no final dos anos 70 intitulado "Psychobilly and Other Musical Diseases".

A partir daí, as coisas saíram de controle. Ivy esclarece:

"Parece que agora existe um estilo de música chamado 'psychobilly' e acho que é definido por um baixo acústico e um ritmo acelerado que nós não fazemos. Acho que nossas músicas têm um ritmo mais sensual. Não sei exatamente o que define o psychobilly, mas parece ter ganhado vida própria. Seja como for, não é bem o que fazemos".

Indo um pouco mais além, e sendo bem mais receptivo à ideia de serem os "padrinhos" desse até então novo subgênero musical, Lux afirma:

"Já ouvi falarem: 'essa banda influenciada pelos Cramps' ou 'aquela banda influenciada pelos Cramps', e na maioria das vezes não consigo perceber dessa forma. Acho que elas são mais influenciadas por tudo aquilo que a gente representa. Acabou surgindo um monte de bandas que gostam das mesmas coisas que a gente, compartilham algumas das mesmas ideias, mas fazem uma música um pouco diferente. E isso é ótimo. Acho que ajudou a enriquecer o cenário musical, tornando-o mais diverso do que seria de outro jeito".

Matéria de Paul Rambali publicada em 10 de junho de 1978, dando o "pontapé" para a associação do termo "Psychobilly" à banda

Essa percepção mais conciliadora de Lux acabou aproximando os Cramps de gigantes do psychobilly, como os Meteors, que, ainda em início de carreira, abriram inúmeros shows dos Cramps no Reino Unido, e o Reverend Horton Heat, que no início dos anos 90 excursionou com os Cramps pelos EUA igualmente como banda de abertura. Sobre estes últimos, Lux afirmou:

"Parece haver muitas bandas que tratam o rockabilly com reverência. Elas cantam sobre dançar em lanchonetes e coisas desse tipo, e isso não é o que o rockabilly deveria ser. O rockabilly é realmente sobre sexo. E eu gosto do Reverend Horton Heat — eles fazem algo novo com essa ideia".

Fonte: Viagem ao Centro dos Cramps, de Dick Porter. Tradução: Diego Carreiro. Editora Sapopemba, São Paulo, 2026.



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